Acabou, mas está só começando.

copaPerdemos. Há sempre uma grande lição em cada derrota, esses episódios que se cristalizam no tempo com força muito maior do que as vitórias. O começo de nossa lição, na tarde da última e fatídica terça-feira, volta agora para seu gran finale em forma de uma grande final, que amanhã será protagonizada por nossos hermanos e nossos carrascos no templo sagrado do futebol brasileiro. Um novo Maracanã para um novo Maracanaço. Alemães, argentinos… Que vença o melhor, mas que, acima de tudo, nós brasileiros, enquanto nação, enquanto sociedade (e por último, seleção), possamos nos tornar melhores. Quem sabe assim, em futuros anos pares passados de quatro em quatro, possamos nos apresentar cada vez menos dependentes da bola no pé e mais confiantes num país com mais amor, respeito, solidariedade e honestidade.

Deixo aqui as palavras de Carlos Drummond de Andrade na ocasião da derrota do Brasil na Copa do Mundo de 1982. Nunca as palavras do poeta foram tão atuais.

Vi gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo perdido; vi homens e mulheres pisando com ódio os plásticos verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados; vi bêbados inconsoláveis que já não sabiam por que não achavam consolo na bebida; (…) vi a aflição dos produtores e vendedores de bandeirinhas, flâmuIas e símbolos diversos do esperado e exigido título de campeões do mundo pela quarta vez, e já agora destinados à ironia do lixo; vi a tristeza dos varredores da limpeza pública e dos faxineiros de edifícios, removendo os destroços da esperança; vi tanta coisa, senti tanta coisa nas almas…

(…)

Chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo. Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo.

(…)

Perdendo, após o emocionalismo das lágrimas, readquirimos ou adquirimos, na maioria das cabeças, o senso da moderação, do real contraditório, mas rico de possibilidades, a verdadeira dimensão da vida. Não somos invencíveis.

(…)

A Copa do Mundo de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos.

E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano já está na segunda metade?

(Carlos Drummond de Andrade. In: Quando é dia de futebol. São Paulo: Companhia das Letras, 2014)

“Rata” de livraria, jornalista (escritora um dia, quem sabe?) e catálogo de música ambulante. Adora sorvete, cachorros e viajar. Mais do que isso, adora conhecer pessoas e suas histórias e fazer amigos.