Como lidar com o egocentrismo em crianças

ego2Para qualquer criança com menos de seis anos, é difícil aceitar que o coleguinha brinque com a bola que ela acabou de deixar de lado. Ou use o mesmo giz de cor que ela usou minutos antes para traçar suas linhas no papel. Ou, ainda, negociar de quem é a vez de entrar no túnel do parquinho. Situações como estas, muitas vezes cheias de choro, tapas e mordidas, acontecem porque o egocentrismo é uma das principais características da infância. Nessa altura da vida, as pequenas ainda não aprenderam algo que lhes será fundamental para toda a vida: compartilhar.

O egocentrismo se refere à inabilidade de enxergar as coisas da perspectiva do outro. Os psicólogos desenvolvimentistas dizem que antes de um ano a criança percebe tudo ao redor dela como parte de si mesma. Funde-se ao mundo que a cerca e nele se vê como centro. Pouco a pouco, a criança reconhece que os objetos são externos, entidades separadas e que suas ações são independentes desses objetos. Mas durante o estágio pré-escolar a criança ainda não consegue compreender outras perspectivas. Acha que as outras pessoas têm a mesma visão das coisas e sentem da mesma maneira que ela. 

Psicólogos afirmam que nessa fase a criança não consegue perceber o outro. Também não mostra empatia em se colocar no lugar de outras pessoas. Não gosta de compartilhar atenção ou pertences e precisa sempre ter suas vontades satisfeitas. Além disso, não vê necessidade de explicar aquilo que diz ou faz, porque acredita que será sempre compreendida e tem dificuldade em lidar com frustrações porque não percebe nada além do seu próprio desejo e sentimento.

Diferenças de acordo com a idade

De 0 a 3 anos 
A criança terá mais dificuldade em compartilhar. É interessante haver momentos de contato com materiais trazidos de casa, desde que haja também experiência com os objetos coletivos.

De 4 a 6 anos 
A criança tem mais condições cognitivas e emocionais para compartilhar. Fica mais clara a diferença entre o material coletivo e os objetos pessoais.

Para demonstrar sua insatisfação e ter suas vontades atendidas, as crianças podem fazer birra para chamar a atenção dos pais e professores, demonstrar certa agressividade e até mesmo atitudes melancólicas, se fazendo de vítima diante das situações de conflito. Nessa fase, a criança se opõe a quase tudo e é justamente essa oposição que vai ajudar a construção da sua identidade, ou seja, a criança descobre quem ela é através do que ela não é. Ele é menino porque não é menina, ela é criança porque não é adulto. É dessa forma que as crianças se diferenciam das outras.

Ao achar que possui um objeto, ou melhor, “todos” os objetos, a criança confunde o “ter” com o “ser”, ou seja, ao disputar um brinquedo a criança busca assegurar a posse da sua própria personalidade. Nas situações de disputa, o desejo de propriedade conta mais que o objeto em si.

Educadores recomendam aos pais que é importante ser paciente e mostrar firmeza. Durante as situações de conflito, auxilie a criança ajudando-a a identificar diferentes perspectivas e olhar a situação por outros pontos de vista. Se for a disputa por um brinquedo, por exemplo, é bom explicar por que o outro não quer emprestar ou sugira que brinquem juntos. Se for um lanche, que tal sugerir que troquem um pouquinho para que ambos possam experimentar o que o outro trouxe? O objetivo é envolver as crianças na resolução do problema, para que futuramente ela possa fazer isso com independência. Ao promover essas interações, os pequenos começam a construir a própria identidade e reconheçer seu jeito de ser.

Como lidar melhor com esse tipo de comportamento?

O adulto responsável, seja no ambiente familiar ou escolar, deve sempre agir como mediador em situações de conflito entre a criança e outra criança, ou até mesmo entre ela e outro adulto. Veja algumas dicas:ego1

1. Esclarecer para a criança quais são os objetos de uso pessoal e quais são os coletivos. Frisar que os de uso pessoal não são emprestados, justificando o motivo. Por exemplo, a escova de dentes não pode ser emprestada por motivo de higiene. Já os de uso coletivo podem ser emprestados/compartilhados, como o brinquedo. Basta sinalizar quais são as regras de um empréstimo (ter cuidado com o objeto e devolver assim que não for usar mais). O exercício de emprestar leva a criança a perceber que os objetos podem ir e vir e podem ser aproveitados por todos;

2. Ensinar pequenas gentilezas, como oferecer o seu lanche aos outros ou sua cadeira para um visitante sentar;

3. Mostrar que as outras pessoas também têm desejos, e que eles devem ser ouvidos. Portanto, diante de uma disputa entre duas crianças, o adulto deve fazer a interpretação da situação: ouvir os lados envolvidos, avaliar os comportamentos como adequados e não adequados, sugerir que elas encontrem a melhor solução, intervir/mediar a negociação e mostrar as maneiras corretas de se comportar;

4. Estimular a autonomia e a cooperação através da colaboração da criança em tarefas simples como desfazer a mesa de jantar, recolher a roupa suja ou guardar seus brinquedos;

5. Estimular o companheirismo, a generosidade e a parceria através do incentivo do cuidado com o outro. Cuidar do cachorro, regar uma planta ou fazer um carinho em alguém doente ou frustrado são bons exemplos;

6. Esclarecer regras simples para o bom funcionamento da coletividade, como, por exemplo, esperar a sua vez para receber a sobremesa, esperar a sua vez de falar, usar o cinto de segurança;

7. Perguntar para a criança em que ela vai ajudar nas tarefas grupais, como sua festa de aniversário. Pode ser sugerido que ela distribua os guardanapos ao arrumar-se a mesa ou que receba os convidados ou ainda que entregue os pratos de bolo após o parabéns.

 

 

“Rata” de livraria, jornalista (escritora um dia, quem sabe?) e catálogo de música ambulante. Adora sorvete, cachorros e viajar. Mais do que isso, adora conhecer pessoas e suas histórias e fazer amigos.