A criação indoor de gatos

criação indoorQuando se fala em adoção e guarda responsáveis, talvez as maiores polêmicas aconteçam em torno da esterilização (castração) e da criação indoor (sem acesso à rua).

Há muitos mitos envolvendo essas questões.

Por exemplo, o de que fêmeas devem dar cria uma vez na vida para evitar câncer de mama — quando, pelo contrário, estudos comprovam que a esterilização antes do primeiro cio reduz em cerca de 70% (alguns falam em até 99% em cadelas) o risco de câncer de mama, uma vez que os animais deixam de produzir os hormônios liberados durante o cio, que alimentam células cancerígenas. Já em machos, reduz a chance de problemas de próstata e de câncer de testículo. Outros benefícios são a eliminação da vulnerabilidade de fêmeas a infecções e tumores uterinos e a pseudociese (gravidez psicológica), a qual poderia resultar em mastite pelo aumento das glândulas mamárias para produção de leite; redução de comportamentos agressivos e dominantes em machos e da possibilidade de fugas em ambos os sexos; prevenção de crias indesejadas e doenças sexualmente transmissíveis (brucelose e tumor venéreo transmissível)… E não se preocupe: seu pet não ficará frustrado — pelo contrário, já que não irá mais produzir hormônios sexuais.

Mas e sobre a criação indoor?

Embora precisem de exercícios regulares (e esse é outro aspecto da adoção responsável: escolher um animal cujo nível de energia seja adequado à sua rotina), o acesso não supervisionado de cães à rua não costuma ser muito defendido. Já com gatos, a história é outra. Apesar de serem, sim, muito curiosos, com instinto exploratório e predatório aguçado, há uma romantização, baseada em valores humanos socialmente construídos, da necessidade de liberdade do gato, visto até como um animal boêmio. Mas a realidade é bem diferente.

Riscos.

Maus-tratos. Não muito distante da concepção romântica sobre a liberdade dos gatos está a de que esses animais são desapegados e interesseiros. Muita gente odeia gato. E, odiando ou não, muita gente é cruel. Seu gato domiciliado, acostumado a conviver com humanos, será presa fácil para adultos e crianças que não o tratem com o mesmo carinho que você.

Atropelamentos. Carros sempre são um perigo para animais na rua, mas especialmente para gatos, que, por serem menores, frequentemente não são vistos pelos motoristas.

Cães. Muitos cães são reativos a gatos e uma mordida pode ser fatal.

Brigas por território. Gatos urbanos formam sociedades agressivas e divididas em classes. Sim, existem regras. Se um gato desavisado invadir o território de um macho dominante, por exemplo, pode acabar seriamente machucado e ainda contrair, entre outras doenças, o vírus da imunodeficiência felina (FIV ou AIDS felina), leucemia felina (FeLV), peritonite infecciosa felina (PIF) ou esporotricose. Esta última consiste numa zoonose, ou seja, é transmissível para seres humanos.

Pulgas e carrapatos. Nenhum parasiticida é forte o bastante para proteger animais contra infestações grandes como as de rua. Carrapatos ainda transmitem erliquiose, que também é uma zoonose.

Crias indesejadas. Caso o animal não seja castrado (e, se ele se afasta de casa, provavelmente não é), ele vai cruzar. Você pode acabar com uma ninhada indesejada em casa. Pode ser difícil conseguir adotantes para os filhotes. Eles podem nascer com problemas de saúde genéticos. Sua gata pode morrer no parto. Ainda que seu gato domiciliado seja um macho, você, no mínimo, pode estar contribuindo com a população de animais abandonados nas ruas — uma questão de saúde pública.

Envenenamento. Veneno para rato também mata animais de porte maior.

O que fazer?

Ao serem esterilizados, gatos perdem boa parte do interesse em se afastar do território que consideram seu e onde se sentem seguros: a casa. No entanto, a esterilização não garante uma criação indoor segura sozinha. Por isso, é necessário instalar telas ou redes de proteção. Isso vale inclusive para tutores que morem em andares altos de prédios, pois, ainda que os gatos não possam fugir, eles podem acabar caindo por curiosidade com alguma coisa do lado de fora ou mesmo se jogando em um momento de pânico ou ansiedade.

Enriquecimento ambiental

Caso você ainda esteja lamentando todas as aventuras que seu gatinho irá perder ao não ter acesso à rua, lembre que o mundo dos gatos, diferentemente do dos cães, por exemplo, não é horizontal e o ambiente da casa pode não ser apenas controlado, de forma a se tornar seguro, como também enriquecido. As possibilidades são muitas: instalação de prateleiras que criem diferentes níveis para o gato explorar; brincadeiras e brinquedos interativos; simulação de caça ao oferecer as refeições (esconder o comedouro, colocá-lo em lugares altos ou mesmo usar brinquedos que liberem a ração ou petisco aos poucos conforme são manipulados pelo gato); arranhadores para que o bichano se alongue e afie as unhas; esconderijos (é possível fazer tocas para gatos com papelão e camisetas velhas); acesso a janelas (teladas, é claro) para observação da rua… Gatos brincam muito entre si, então também considere criar pelo menos dois juntos.

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Apaixonada pela literatura, pelo objeto livro e por cada etapa de sua produção, cursa graduação em Letras na UERJ, onde promove iniciativas de capacitação para o mercado editorial para aqueles que compartilham do mesmo sonho: viver de fazer livro.