Entendendo o aprendizado infantil

escalada1Sabemos que as crianças aprendem comportamentos, destrezas, hábitos e conhecimentos, de maneiras muito variadas. A psicologia e a pedagogia têm explicado, de diversas formas, os métodos e variações de aprendizagem nessa idade. Uma das teorias mais comuns, e que muitos pais já devem ter sido ensinados em reuniões com professores e educadores em geral, é a da aprendizagem por “andaimes”. Esquisito? Nem um pouco! Não se trata de colocar as crianças para escalar uma estrutura física: a escalada é, logicamente, intelectual.

O que significa e de onde vem esse conceito? Segundo as teorias construtivistas, todo processo de aprendizagem é um processo de construção. Em uma analogia com a construção civil, por exemplos, podemos visualizar um aprendiz e um mestre em um andaime (scaffolding). Na extensão o mestre usa diversos métodos para aumentar a abrangência na utilização de um certo conhecimento a ser transferido. Na altura, para que novos conhecimentos sejam adquiridos, o mestre vai elevando o andaime à medida que o aprendiz vai conseguindo proficiência na aplicação de um conhecimento já consolidado.

Como isso acontece no aprendizado infantil?
Muitos aspectos do desenvolvimento da criança ocorrem num padrão mais ou menos linear. O ato de engatinhar precede o de andar, o balbucio precede a fala e a capacidade de resolver um problema de geometria é antecedida pela aquisição de noções aritméticas básicas. O psicólogo russo Vygotsky afirmava que o desenvolvimento cognitivo se realiza no que ele chamou de zona de desenvolvimento proximal. Basicamente, ele quis com esse termo se referir ao espaço entre o que a criança é capaz de realizar por si só e o que pode realizar quando estimulada e ajudada por educadores.

Quando uma criança desenvolve plenamente uma habilidade – isso se dá no nível do desempenho independente – ela consegue completá-la sem a ajuda de outra pessoa. Ao longo do desenvolvimento existem habilidades que podem estar prestes a emergir, com mais probabilidade conforme o grau de ajuda que recebe dos outros. Essas habilidades existem na zona de desenvolvimento proximal de Vygotsky. Num dia a criança pode ser capaz de realizar uma tarefa somente com o auxílio de alguém, mas no outro pode estar apta a realizá-la sozinha e evoluir para o nível do desempenho independente.
Todos já tivemos a experiência de deparar com uma tarefa trabalhosa, e até de já ter estado prestes a desistir dela, mas, graças à assistência recebida, conseguimos encontrar a solução. O aprendizado que acontece na zona de desenvolvimento proximal envolve dois processos: colaboração conjunta e transferência de responsabilidade.

Quando a responsabilidade pela realização de uma tarefa (como um quebra-cabeça) é dividida entre um adulto e uma criança, eles realizam a colaboração conjunta. Nos primeiros estágios o adulto tomará a frente do processo de aprendizado, mas à medida que a criança aprende como resolver o problema o adulto transferirá a responsabilidade para ela. A razão para a retirada gradual do apoio do adulto é proporcionar à criança mais oportunidades de agir de maneira independente. Dessa forma, ela começa a internalizar (como seu) o que inicialmente era conhecimento assistido.

escalada2A noção de andaime

O processo pelo qual os adultos dão o apoio de que a criança necessita para operar no nível elevado da zona de desenvolvimento proximal é conhecido por construção de andaimes. Pressupõe igualmente a retirada gradativa do apoio à medida que a criança é capaz de ter um bom desempenho de forma mais independente. Trata-se de um processo pelo qual um pai, adulto, professor ou mesmo algum colega mais velho facilita a transição de um desempenho assistido para um independente. No início, a criança precisa de muita assistência do tutor, mas aos poucos a responsabilidade é transferida e os andaimes são removidos. É importante recordar que construir andaimes não é legar a conclusão da tarefa ao educador ou adulto. Esse é um erro comum, baseado na noção de que, se vir o adulto completando a tarefa, a criança se tornará apta a executá-la por imitação.

Embora obviamente muitas tarefas sejam aprendidas dessa forma, esse processo nem sempre é ideal, visto que não transmite adequadamente os sucessivos pequenos passos que constituem a execução de uma tarefa. Sabemos que para o indivíduo adulto os requisitos necessários à execução da tarefa possam parecer evidentes, mas a verdade é que ele teve de aprender diversas habilidades para chegar ao desempenho que tem hoje. A construção de andaimes também não implica que o tutor ou educador facilite de alguma forma a execução da tarefa por parte da criança. É intrínseca à noção de construção de andaimes a importância de que o tutor, em vez de oferecer à criança uma resposta, ensine-lhe uma estratégia.

Quando uma criança pequena é confrontada com um objeto estranho ou uma palavra desconhecida, em lugar de simplesmente fornecer a resposta, o educador deve discutir com ela estratégias para chegar à resposta. Isso pode envolver o emprego de imagens ou outras pistas que a orientem na direção certa.

É possível ajudar especificando a sequência de atividades que pode estar envolvida na resolução do problema. Por exemplo, se, ao completar um quebra-cabeça, a criança não consegue encontrar uma peça, simplesmente dar a peça certa não constitui construção de andaimes, ou uma forma de aprendizado que se realiza ao nível da zona de desenvolvimento proximal. Em vez disso, entre as alternativas estariam sugerir à criança que separe as peças em pilhas de cores semelhantes, e que então tente encaixá-las. Se essa estratégia for muito complexa, você pode sugerir outra, como completar as bordas do quebra-cabeça primeiro, ou mesmo fornecer-lhe uma pista sobre a cor de uma peça em particular. Em tal caso, a construção de andaimes poderá oferecer uma explicação sobre por que você fez uma sugestão a fim de que a criança tenha acesso ao seu processo de pensamento e às estratégias que você aprendeu e internalizou.

DICAS DE CONSTRUÇÃO DE ANDAIMES

  • Não forneça a resposta à criança.
  • Providencie a instrução necessária no nível em que a criança está operando.
  • Cuidado para não fornecer assistência insuficiente, o que resultará em frustração por parte da criança.
  • Certifique-se de que está fornecendo os equipamentos e materiais necessários à realização da tarefa.
  • Deixe a tarefa meio “mastigada”, dividindo-a em partes menores e mais manuseáveis, e então em partes maiores e mais significativas.
  • Ajude a criança a se concentrar na tarefa.
  • Forneça estímulos por meio de incentivos e elogios.

“Rata” de livraria, jornalista (escritora um dia, quem sabe?) e catálogo de música ambulante. Adora sorvete, cachorros e viajar. Mais do que isso, adora conhecer pessoas e suas histórias e fazer amigos.