Os bastidores da entrevista com Neil Gaiman

Na edição de julho da Revista Seleções nós publicamos uma entrevista com Neil Gaiman, escritor inglês aclamado pelo público e pela crítica, e adorado por uma legião de fãs fiéis  – só no Twitter ele tem quase 2 milhões de seguidores e seus livros marcam presença constante no topo das listas de mais vendidos no Brasil e no mundo. (Se você não teve a oportunidade de ler a entrevista na nossa edição impressa, poderá conferi-la aqui.)

Atendendo a pedidos, em especial dos fã-clubes Sandman BrasilNeil Gaiman Brasil com quem tive contato por ocasião da entrevista (e também por ter sido a tradutora para o português de seu novo livro O oceano no fim do caminho), compartilho agora os bastidores da entrevista :)

Nosso encontro estava marcado para o dia 14 de junho, às 18:30, na livraria Topping and Company Booksellers, em Bath, onde ele autografaria alguns exemplares do livro antes de seguir para o evento de pré-lançamento que aconteceria no The Forum, às 20:00, e no qual seria entrevistado no palco para uma plateia de 1.500 pessoas. Ao chegar à livraria, eu teria 15 minutos para fazer minhas perguntas, depois aguardaria o fim dos autógrafos e seguiria com ele até o Forum. Esse era o plano.

Lá pelas 16:00, do meu quarto de hotel, mandei um SMS para a Samantha Eades (a pessoa encarregada de organizar os compromissos dele lá na Inglaterra), para dizer que eu já havia chegado a Bath e para confirmar a hora do encontro. Ao que ela respondeu: “Mudança de planos. Estamos atrasados. O trânsito está terrível. Vamos pegar um trem de Londres para Bath. Não teremos tempo de ir à Toppings. Vamos direto para o Forum. Você pode fazer a entrevista agora, por telefone?”

Após um instante de “choque”, respondi que sim, claro, mas que precisava de alguns segundos para preparar o gravador. Tirei-o rapidamente da bolsa, fiz um teste para ver se estava funcionando direito e telefonei para o celular da Sam. Ela atendeu e passou o aparelho para o Gaiman.

Eu tinha uma lista de perguntas à minha frente (a essa altura eu já estava sentada na cadeira da cômoda do quarto, onde apoiei o iPad com as perguntas que havia compilado durante a minha viagem de trem de Londres para Bath), e, após as apresentações e o quebra-gelo iniciais (ele muito simpático e educado), comecei a fazê-las (falando com ele pelo viva voz do celular para poder gravar as respostas – a qualidade da ligação estava muito boa, o que foi um alívio).

Depois de uns 15 minutos, algo estranho aconteceu. Comecei a ouvir uns barulhos muito altos ao fundo. Perguntei se ele ainda conseguia me ouvir. Ele respondeu que sim, mas que teria de me ligar dali a alguns instantes porque havia chegado a hora do embarque e precisaria desligar. Desligamos e fiquei aguardando o retorno.

Quase duas horas depois, recebo um SMS da Sam dizendo o seguinte: “Nova mudança de planos. Venha AGORA para o Forum. Você consegue chegar aqui em 10 minutos? Você vai poder terminar a entrevista aqui nos bastidores do teatro, antes do evento.”

Peguei a bolsa, joguei o gravador e a máquina fotográfica dentro, e corri para a rua, a fim de pegar um táxi. Mas não passava nenhum. Entrei no hotel e falei com a recepcionista, que me explicou que em Bath os táxis são proibidos de pegar pessoas na rua aleatoriamente. É preciso ligar para a central de táxi e fazer o pedido. Ela, um doce de pessoa, ligou logo para a central e disse que precisava de um carro com urgência. Em menos de 5 minutos eu já estava dentro do carro a caminho do Forum. Em menos de 10 minutos eu estava em frente ao Forum, onde havia uma fila de milhares de pessoas (debaixo de uma chuva fina) esperando para entrar no teatro.

Mandei um SMS para a Sam com um rápido “Cheguei!”, e ela me pediu que andasse até a rua ao lado e procurasse o portão dos fundos do teatro, onde iria me encontrar. Segui suas instruções, e encontrei-a abrindo o portão de ferro verde para me receber e me levar para a sala onde o Neil Gaiman estava autografando os livros (eles haviam pedido ao pessoal da livraria Topping que transportasse os 1.500 exemplares para lá, para que ele pudesse assiná-los todos antes das 20:00, quando teria início o evento).

Na sala havia cinco moças dispostas em torno da mesa à qual ele estava sentado (de costas para a porta da sala, por onde entrei): uma arrumando uma pilha de livros à direita dele, outra deslizando um grupo de cinco exemplares de cada vez para a sua frente, e, a cada livro autografado, ele o deslizava para outra moça em pé do seu lado esquerdo, que o entregava para outras duas moças que iam colocando os exemplares em caixas. E tudo acontecendo num ritmo frenético.

Sentei-me no sofá de dois lugares perto da porta e esperei. Depois de uns 10 minutos, ele se levantou da cadeira e a Sam foi ao encontro dele com uma xícara de chá. Ele andou na minha direção, sentou-se ao meu lado e me cumprimentou dizendo: “Então, onde foi que paramos?”

Mesmo estando em cima da hora do início do evento, ele se concentrou 100% na entrevista, e até se estendeu longamente em algumas das respostas. Sem pressa alguma. E tomando calmamente o seu chá.

Quando eu já havia acabado de fazer todas as minhas perguntas, agradeci, e ele voltou para a mesa a fim de terminar os autógrafos dos livros que faltavam.

Enquanto isso, segui para o interior do teatro, onde me sentei numa cadeira reservada na primeira fila e aguardei, juntamente com os outros 1.499 integrantes da plateia, pela chegada dele e do jornalista ao palco.

A entrevista durou 1 hora, mais ou menos. Ao fim, os fãs formaram uma fila no corredor central do teatro e fizeram as mais diversas perguntas (a maioria sobre os livros anteriores dele – e também sobre seus quadrinhos, roteiros de filmes para o cinema, para séries de televisão etc.), às quais ele respondeu com a maior paciência e atenção. Um gentleman.

Agora vocês devem estar se perguntando: Ok, ok, mas… E ESSA FOTO?!

Respondo.

Eu estava ali como a pessoa da Revista Seleções que iria entrevistá-lo, mas também como a pessoa que havia traduzido para o português o livro que ele estava lançando, e como a fã que sou do trabalho dele há tantos anos. Não dava para perder a oportunidade de registrar esse momento. Ao fim da entrevista, perguntei se poderíamos tirar uma foto rápida, ao que ele respondeu com um efusivo “Claro!”, e me deu esse abraço enquanto uma das moças tirava a foto com o meu celular.

Agora quem pergunta sou eu: vocês não fariam a mesma coisa?!

:)

Renata Pettengill

P.S.: O Leandro Matos, do Sandman Brasil, criou um álbum na página do Facebook dele com algumas das fotos que tirei durante as minhas pesquisas para a tradução do livro. O álbum pode ser visualizado aqui. Já o Felipe Stoker, do Neil Gaiman Brasil, publicou no site dele uma entrevista comigo, que pode ser conferida aqui.

É mãe do Nicolas e do Patrick. Nas horas 
vagas trabalha editando a Revista Seleções e outros produtos editoriais do Reader’s Digest Brasil.