Viva mulheres

mulheresEmbora tenha adquirido, muito por meio da propaganda publicitária, um caráter de comemoração do que se constrói socialmente como feminilidade, o Dia Internacional da Mulher refere-se ao início da greve das tecelãs de São Petersburgo, em 1917, por melhores condições de trabalho e contra a entrada da Rússia czarista na Primeira Guerra Mundial, um marco da Revolução Russa. Mesmo a escolha da data para essa ação política já trazia consciência da luta feminista: nesse mesmo dia, em 1857, um movimento semelhante, de operárias de uma indústria têxtil de Nova Iorque, foi violentamente reprimido. Em 1908, comerciantes de agulhas nova-iorquinas já o haviam homenageado com uma nova manifestação, que também exigia o voto feminino e o fim do trabalho infantil.

Assim, mais do que uma data para se expressar carinho a mulheres e agradá-las com flores e chocolates, 8 de março mantém vivas a memória da guerra histórica contra a desigualdade de gênero e a consciência de que ainda há batalhas a se travar. Conforme tradução de Marina Góes de uma declaração da ONU, instituição que reconheceu a data apenas em 1977, no Dia Internacional da Mulher de 2009:

Este é um dia em que as mulheres são reconhecidas por suas conquistas sem levarmos em conta quaisquer divisões, sejam elas em virtude de nacionalidade, etnia, língua, cultura, economia ou política. É uma ocasião em que devemos olhar para as lutas e realizações do passado e, mais importante ainda, para que olhemos adiante, para o potencial inexplorado e para as oportunidades que aguardam as futuras gerações de mulheres.

A frase “Nem uma morta a mais”, cunhada, em 1995, pela poeta e ativista mexicana Susana Chávez, assassinada em 2011 por sua luta pelos direitos das mulheres, inspirou o mote “Nem uma a menos”, usado em manifestações por toda a América latina, entre 2015 e 2016, contra o feminicídio e a violência doméstica e de gênero. Com esse grande (e doloroso) exemplo em mente, assim como a declaração da ilustradora feminista Sarah Héricy (Sahr): “Graças a interação do feminismo com a arte, a história vai deixar de ser escrita por homens”, fiquemos com uma expressão de Adélia Prado sobre a mulheridade:

Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Apaixonada pela literatura, pelo objeto livro e por cada etapa de sua produção, cursa graduação em Letras na UERJ, onde promove iniciativas de capacitação para o mercado editorial para aqueles que compartilham do mesmo sonho: viver de fazer livro.